sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O Peregrino da Lua


 A Terra possui imensidões que assustam o homem.  Os desertos, tanto os de gelo quanto os de areia serviram para pôr fim à vida dos Homens que aventuraram-se (ou desventuraram-se) a passar por lá. De todas as tais imensidões, o Espaço e o Mar o atraiam mais.
   O Alto Mar chamava sua atenção pela paz que trazia e pelo perigo que escondia lá. Esconder era exatamente o que Leon queria. Precisava de descanso, necessitava de distância das reclamações e do modo pessimista que as pessoas costumavam se expressar. Ser pessimista era uma coisa, mas fazer de todo fator da vida um ponto péssimo da mesma, além de irritar, atrai aquilo que não se quer. Leon cansou disto; das pequenas reclamações ininterruptas de todos os lugares onde ia. Mesmo dentro de casa não tinha silêncio, pois tudo era motivo para uma alfinetada, inclusive o silêncio.
   Pela noite mais escura, Leon pegou seu pequeno barco e deixou que o vento o levasse até um ponto onde a terra firme já não era mais vista e apenas a luz da Lua e das Estrelas iluminava-o, distinguindo ele e seu barco do resto daquela imensidão ao redor dele. Era mais do que sentir-se vivo, era poder respirar fundo sem tossir e gritar sem ser tolhido, era poder correr e ouvir suas músicas sabendo que ninguém jamais reclamaria, porque ninguém além dele num raio de quilômetros estaria lá para se incomodar.
   Horas passavam e a solidão então veio. Leon sentia-se só. Não tinha com quem divir aquela sensação de liberdade nua e crua. Pensou que seu lar não fosse na terra firme, pensou que fosse em Alto Mar, junto de nada. A luz da Lua então iluminou seu rosto exposto enquanto deitava no convés para observar a outra imensidão que gostava de ver com todos os seus enfeites e luzes.
   Fechou os olhos e sentiu o toque macio e agradavelmente gelado da Lua. Deixou-se arrepiar por este toque e tirou a camisa, para sentir mais daquilo. Olhou firmemente para os olhos da Lua e sentiu como se a cintilação das estrelas que ela trazia com ela, fosse palpável. Desejou tocar nos fios luminosos que saiam dela. Eram longos fios finos de uma luz amarela, agradável aos olhos, que desciam e tocavam em todo seu corpo esparramado pelo convés.
   Leon agora estava tranqüilo e sentia-se quente, aconchegado. Tudo ao redor era nada mais que um borrão da realidade, uma que ele agora percebia diferente. Não era tudo azul, nem tudo preto ou tudo cinza, mas tudo agora era colorido, e as cores vinham diretamente dela, de sua coroa em forma de arco-íris que ela carregava ao redor do rosto e que expunha sempre que fazia a mínima menção de sorriso. Leon amava isso; essa forma discreta de sorrir que a Lua tem.
   Agora, como nunca foi, sentia-se em casa. Não em sua casa onde morava, mas no lar a que pertencia realmente. Sentia que ali era o lugar onde deveria estar; abraçando-a, sentido, sentido seu toque e seus finos cabelos luminosos. Era o mais perfeito lugar, na mais perfeita hora. Podia ficar ali para sempre, mas ela teria que ir.  Na verdade iria ali para voltar logo. Era esse seu conforto. Daquela noite em diante, Leon passou a navegar ao redor, sempre seguindo a noite para estar perto dela, onde era seu lar e seu lar era onde ela estivesse, por isso, não há onda, nem grande, nem enorme, nem pequena. Não há monstro no mar, nem sereias que tentem encantar, pois o amor de Leon pela lua transcende qualquer obstáculo e ninguém pode roubá-lo, pois não há como roubar o que não está mais em poder de quem se tenta tal ato. O Amor de Leon era da Lua, que sempre o abraça e sempre o abraçará até o dia em que tudo o que restar de Leon se tornar pó e para o pó voltar.
    Até que este dia chegasse, ele não tardaria em fazer para Lua aquilo que ela merecesse, por mais que aquilo que a mesma merecesse, foi mais do que ele pudesse dar e assim sempre achava que recebia mais do que dava. Por isso, de si mesmo dava e dava com alegria, não porque recebia, mas porque amava dar-se a Lua.

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