sexta-feira, 2 de março de 2012

A Estrela predileta.


   Hoje acordei em um lugar estranho. Não era minha casa e as quatro paredes que me cercavam não eram as do meu quarto. Senti o calor no colchão, mas era aquele calor que o corpo deixa quando vai embora. Foi nesta hora que senti que tinha partido, não eu, claro. Cerquei aquele calor com meu braço, como se pudesse mantê-lo lá apenas com esse gesto.
   Resolvi fechar os olhos, era, talvez, a melhor coisa a se fazer. Ignorar a ida ou chegada nunca chegada me parecia um bom plano. Era como se eu reservasse aquele lugar para alguém em especial, uma pessoa a qual eu pudesse cercar com meus braços sem segundas intenções, sem um objetivo final, a não ser viver uma vida plena em algum  lugar em que os dois gostassem.
   Senti o suor escorrer pelo meu corpo. Não cheirava como suor. Tinham o cheiro de lágrimas. Era a hora em que meu corpo chorava. Não havia sentido chorar por algo que nunca veio ou por algo que não quis ficar, nem por algo que ficou falsamente. Era isso que eu tinha posto em minha cabeça. Os arredores eram puro breu, daqueles que me embebedavam. Parece que vivi mais tempo na escuridão macilenta do que propriamente na penumbra ou na luz. Senti que meus olhos se adaptavam bem ao ambiente embora o ambiente não existisse.
   Era aí que estava a chave; Adapto-me bem ao que nunca existiu, sinto falta do que ainda não vi. Percebi que nenhum músculo do meu corpo estava afim de se mexer, não sei porque, mas acho que viciei em toda essa sensação de solidão e pseudo-auto-suficiência. Não era vício, era costume. Não me lembrava de nenhum ano em que pelo menos duas semanas dele se passassem longe dessa escuridão. Tinha me habituado a enxergar melhor no escuro e a me incomodar com o excesso de luz, por isso, achei incomodo uma pequena luz que brilhava de repente no nada, ao lado de onde eu estava flutuando na massa negra que me envolvia.
   Aquela luz parecia perto, como quando olhamos para luz e imaginamos que se subirmos em uma escada, então conseguiremos alcançá-la. Não passa de uma ilusão. Observei-a brilhar, até o incomodo que o efeito dela me causava tornar-se tão bom quanto a paz que a escuridão me trazia. Resolvi então alcançá-la, assim como se faz com a Lua. Saí de meu lugar aconchegante e fui andando com leves passos em direção aquela bela Estrela que agora tanto me atraia. Meus passos estavam leves e eu podia sentir a maciez do chão escuro. Caminhei por vários dias até poder chegar perto da estrela. A caminhada foi longa e eu vinha descobrindo o que aquela estrela tinha em comum comigo e como o brilho dela era tão diferente de todas as outras estrelas que um dia vi.
   Não se pode tocar uma Estrela como aquela, eu sabia disso, mas no fundo, não estava nem aí. Era um privilégio raro e uma felicidade incomum. Não é em todo céu que se encontram estrelas que mais parecem anjos. Estive perto dela por algum tempo e percebi que o interior dela era tão melancólico quanto o meu. Era algo familiar para mim, além de ser confortavelmente calmo. Minha visão ia apenas em direção dela e então percebi, depois de me desipnotizar, que outras estrelas caminhavam ao ao redor. Não liguei, até porque estas estrelas eram tão comuns quanto qualquer outra em qualquer céu.
   Determinei-me a não persegui-la, me impus a não tocá-la, pois sabia que ela iria escapar e que possivelmente eu não aguentaria mais e mais dias de caminhada para achá-la novamente. O pensamento que me vinha era o de encontrar forças. Sentei-me ao lado da Estrela, sem nunca tocá-la mas sempre mantendo-a sã e salva como era possível. Os dias passavam e eu me preocupava com a intensidade do seu brilho e se ela estava feliz com o que havia ao redor. Vê-la brilhar feliz me trazia muita satisfação. Reunir as forças levou tanto tempo que nem me lembro quanto.
   Então não pude mais suportar. Eu tinha esperança de que ela não fugisse, mas nem sempre a esperança fala a verdade. Eu sabia mais da verdade e sabia como seria. Então levantei-me e toquei-a. Foi justamente como eu previa mas de uma modo diferente. A estrela desviou de minha mão e recuou um bom pedaço. FOi aí que olhei para trás e vi meu refúgio, ainda desarrumado da última vez que fui para lá. Fiz um reverência para a estrela, afinal, era uma estrela digna de honras e reverências e me pus a caminha de volta ao meu antigo lugar. "De lá" pensei "Pelo menos poderei observá-la sem que ela vá mais longe e então poderei me admirar com o seu brilho e a alegria que me trás este brilho e o melhor de tudo, é que ela vai continuar brilhando. Foi com o que pude me contentar e era melhor para esta Estrela, apesar de acreditar que eu também poderia ser uma estrela e então a Estrela e eu poderíamos ser uma só Grande Estrela.
  Enrolei-me nas cobertas e dormi à luz da mais bela Estrela que o céu possui.

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