segunda-feira, 11 de julho de 2011

Recantos escuros.


    Enquanto a capa da noite ia caindo, naquela velha brisa da madrugada. Gelada porém reenergizante. Sempre tive mais disposição na escuridão, a luz do sol me incomoda, acho que por mostrar minha face para mim mesmo. Enquanto corujas cantavam perto da janela e as almas estavam em pleno repouso, me peguei pensando nela. Pensei um belo "Puta merda...". Mas só pensei, e vi que agora eu estava desaprendendo a falar também. Desaprendia a falar, desaprendi a viver em grupos, desaprendi a soltar o que há dentro de mim, desaprendi a confiar e a ser solto por mim mesmo.


    Era madrugada e eu desci as escadas do prédio, o vento frio batia junto com gotas finas de chuva, era o clima perfeito para ter uma poética morte. Eu não pensava em morrer, apenas escrevia sobre isso. A tal da Morte... Quem sabe pode falar, perder alguém assim não é fácil, mas também há perdas bem semelhantes a ela. Subi as escadas escuras, ótima sensação. Cheguei em casa e pus minhas coisas na bancada do meu quarto. Evitei ligar a luz, a sensação estava ótima, uma mistura de invisibilidade, disposição total e poder. Infelizmente duraria pouco. Tomei um banho muito, muito gelado e percebi que meu corpo é estranhamente mais quente do que eu imaginei. Até onde eu sabia eu não era lobisomem e não pretendia ser, esses seres já estão com a reputação muito ruim...

    Continuei vagando pela casa no escuro, esperando que a fonte do "Puta merda..." tivesse ido embora, mas não foi. Andar por ali era o mesmo que pedir para lembrar da existência, da condição e da minha ligação. Pensei que saberia passar por isso, afinal, já passei e já fiz passar por isso algumas outras vezes.  Aquela maldita intuição; o aviso de que tudo no próximo raiar do sol será uma tremenda e inevitável catástrofe.
Depois de muito caminhar pelos corredores da casa como uma alma perdida ( coisa que me fez rir, pois de fato me sentia assim.)  decidi deitar minha atribulada cabeça num travesseiro e fechar os olhos. A escuridão era tanta que não fazia diferença entre olhos fechados ou olhos abertos.

    Assim que fechei meus olhos, vi todos aqueles seres. Um sentado na cadeira da bancada, um sentado aos pés da cama e outro em pé, em frente ao guarda roupa. Olhei todos eles atentamente, falei educadamente com cada um e tornei a deitar, mas não dormi, conversei com cada um. Eram simpáticos, principalmente o que estava em pé em frente ao guarda-roupa. Este eu reconheci de algum modo. Era aquela que toda noite vinha e me deixava sem palavras e com as mãos dela ao redor do meu pescoço, eu fechava os olhos e dormia tranquilamente. Ela era meu pensamento nela mesma. Queria que ela não morresse antes de mim. Eu sabia quem ela era, sabia que ela existia e aquele toque dela me parecia muito distante mas aquele Amor eu não podia perder.

    O que estava aos pés da minha cama não era de falar, exatamente como eu, porque ele era eu. Conversamos metalinguisticamente enquanto tomávamos apenas um copo de guaraná. Depois ele sumiu bem em frente aos meus olhos como fumaça em um tornado. Aquele era eu. Eu e meu passado que sumiu e o que sumi. Ainda era bom nisso Sumo com facilidade e apareço quando quero. Péssimo para relacionamentos e ótimo para isolamentos. Já está provado, mas sou teimoso. Coloquei os copos em cima da bancada e acidentalmente derrubei um no chão. Esperei para ver se alguma alma da minha casa apareceria para ver o que houve. Felizmente só pude ouvir meu pensamento.

    Me abaixei e peguei os cacos e como num filme clássico me cortei e coloquei o dedo ensanguentado na boca. O ser da cadeira veio até mim, puxou minha mão e mostrou-me o sangue que caia daquele corte pequeno. Olhei fixamente as gotas e vi para os o "quês e quens" aquelas gotas tinham sido dedicadas. Poucas delas foram para mim mesmo, a maioria delas era pra quem não estava mais lá e para o que não existe. Felizmente o que havia de guerra nelas tinha sido recompensado com muita paz e lealdade. Olhei fixamente nos olhos dele e ele, para variar, também era eu. Era o eu conspirador e leal a quem fosse a ele. Ele, ou eu, não sei mais, me sorriu, me deu um abraço e mostrou-me que eu tinha faltado com lealdade a mim mesmo.

    Depois de ter me mostrado o que eu vinha fazendo, me olhou nos olhos de modo que eu não me aguentei e ri, mas ri de medo, de nervosismo, vi que teria que me tornar uma pedra de gelo novamente. Odiava essa ideia, era difícil e inútil mas agora tinha tornado-se necessária, diria que até seria questão de vida ou morte.

    Depois que entendi tudo, os três me mostraram as rosas vermelhas (Como se eu não as conhecesse). Me mostraram uma em particular, uma que eu sabia que não era para mim as cores das pétalas mas a semelhança comigo era ridiculamente grande. Deitei no chão do quarto, cruzei os braços atrás da cabeça e deixei uma única porém enorme lágrima cair. Me mostraram uma outra rosa, essa era praticamente invisível mas era belíssima de observar. E a outra rosa, a mais cruel e com mais espinhos. Para mim era belíssima, lembrei-me de quando a colhi, de quando ela quis sair de perto de mim e depois foi para outro vaso.

    Fiquei com a rosa igual a mim na cabeça e não fazia ideia do porque. Só sabia que tínhamos alguma ligação mas eu não sabia qual. Não queria amá-la pois ela não permitiria e eu também não. Assim os espinhos iriam entrar profundamente em minhas mãos e eu acabaria por fazê-la murchar.
Enfim fechei os olhos. Um segundo depois eu os abri e já era tarde, muito tarde. O sol batia no meu rosto e me incomodava. Apenas sentei ao pé da cama, tomei um copo d`água, levantei-me, me estiquei em frente a porta do guarda-roupa e sentei na cadeira da bancada e pensei.

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