quarta-feira, 15 de junho de 2011

Colapsos vermelhos.

   Era aquela velha história, é o caso que todos temos daquele conflito mental. Ocorria na cabeça daquele rapaz também, ah, como ocorria. Aqueles dias tinham sido dias de cão, mal dava para deitar na cama e dormir tranquilamente. Era como se a turbulência que os problemas causavam, viessem balançar a cama dele toda santa noite. Ia e voltava como um morto-vivo dentro de uma cela pequena, movimentando-se lentamente em busca de algo para alimentar sua fome de sabe-se-lá-o-quê. Um zumbi de energia pulsante e em constante movimento violento pelo corpo. Apenas andava pelo Recife todo. Não que não tivesse destino mas andava porque queria fazer daquela cidade toda o seu bom lar.


   É aí que se arranja um problema. Recife é um espelho, reflete você e seu humor. Não adianta ir ao bom e velho Recife Antigo e estar com o humor de um velho à beira da morte. Se for, vai piorar, vai se ver com a cara no chão onde todos aqueles hipsters, góticos, pseudocults, hippies, pagodeiros e reaggeiros pisam, mijam, degradam. Lá não é solo sagrado, lá é barulho e uma conversão de energia enorme para dentro de quem estiver por lá. O rapaz estava lá. Não, acho que não estava, o álcool já estava lhe consumindo as razãoes, contudo, para ele tanto fazia ter ou não ter razão, essa não era a causa principal. Ele era agora era o ponto divergente das energias de lá, tudo porque ele mesmo já estava cheio de energia e precisava dissipá-la. Usou o que tinha a disposição, álcool, música alta, tentou da sedução, mas a maioria era lésbica.


   Volta pra casa escoltado ás 3 da madrugada, faz com que seu pequeno porém leal e marcante grupo pare em algum supermercado para lhe comprar algum suprimento. Chega em casa e não entra, simplesmente senta-se e reflete se é ele mesmo ou o alterego desvairado, agressivamente defensor e defensivo. Olhou para a tatuagem no antebraço e ela lhe fez mais sentido ainda. Era só buscar a verdade. Graças a Deus que não era. Mesmo assim, ele continuava sendo problemático.


  3 dias depois e a energia ainda estava mantida no seu peito. E daí? não tinha muita coisa perder, a não a sua completa sanidade. Sanidade que provinha de conhecimentos obscuros não convencionais e um pouco da Thelema. Sentia agora que tinha que fazer o Kerouac fez, morria de vontade disso mas, por enquanto, não tinha como fazê-lo. Sabia distinguigr todo sentimento que lhe vinha. Sempre foi assim. Dessa vez o que vinha era a mistura macabra entre agonia, saudade e vontade de pular pela janela de um carro em movimento só para ver se o mundo dá uma girada a mais e tudo volta a ser como era antes.


   Ele gostava daquela vida, daquela falta de rotina responsável ( não que não tivesse responsabilidade, pelo contrário, a havia responsabilidades mas não havia rotina para elas) o ruim era não ter com quem dividir. Mas também não estava nem aí, jamais ligara para nada disso, mas quando passou a ligar, em 2 míseros anos se deu bastante bem e logo em seguida bastante mal. Era aquela velha coisa que já o havia atingido antes, o ódio da ditadura da felicidade, das ironias do Sr. Destino. Sr Destino é um palhaço bastante soturno e irônico em demasia. Por isso, tudo o que vinha à sua mente era a cor do cabelo, os olhos diferentes e a substituição. Era como se tudo tivesse sido uma mentira, um passatempo. Burrice dele cair pois ele sabia que quando se dá 60 por cento é bem certo de que isso aconteça e que depois não vão dar a mínima. Colhemos o que plantamos.


   Agora ele está lá, com um caderninho na mão pensando no escrever naquele livo que ele ainda pensa em publicar mas a responsabilidade o impede de escrever mais que duas páginas por semana.  Música que toca é "La jeune fille aux cheveux blancs". Ele nem sabe falar francês. Compreende alemão, compreende um pouco de finlandês, holandês, italiano e fala inglês. Mas não sabe nada de francês. Francês nunca lhe fez tanto sentido na vida. Foi aquela iluminação bizarra que se parecem epifanias mas são só notas musicais bem distribuidas. Isso era tudo. Música era a droga alternativa, escrever era uma droga alternativa. Passaram-se horas e ele não desgrudava do caderno.


   Tudo o que estava escrito até agora era; "Então, possivelmente tornou-se dois, um era ele e outro sua própria alma fora do corpo." Rosenrot, era o que tocava. A rosa vermelha que ele outrora teve resolveu sumir. Sempre foi assim. O pior é que duas rosas lhe apareceram, uma longe e uma perto. Perto mas longe. Três interessantíssimas e belas rosas. No fundo ele era louco, não estava raciocinando, só estava liberando todos aqueles milhões de megatons de dentro do corpo e da mente. Pensava em 4 coisas ao mesmo tempo a cada 5 segundos.


   Estava cansado e taquicardico, o coração batia na mesmo velocidade que a de um coração de um beija-flor. Ele queria beijar as rosas, mas beijar respeitosamente, sem paixão lasciva. Queria protegê-las e ajudá-las no que fosse possível, queria dar-lhes o carinho, o calor e todos os nutrientes necessários para que elas tornassem-se ainda mais belas do que já são. Queria isso de todas as três, mas era impossível e isso o consumia. Uma das rosas tinha sua preferência, era sua rosa eterna. Ele nunca disse qual era, mas estava bem na cara. Agora era rei sem rainha. Um Herói!


   A noite vai acabar e ele não vai chegar à conclusão alguma, vai ficar bem louco, vai bater com ódio no saco de pancada, vai terminar com os dedos queimados do atrito, o corpo brilhando de suor e aquele velho olhar do qual quem não o conhece tem medo, o simples olhar de quem protege quem está ao seu redor com unhas, dentes e punhos se for preciso. Vai tomar banho e tentar deitar na cama, mas as rosas, a energia, a velocidade, o constitucionalismo, a porcaria do cartão de crédito e do baixo vão passar pela cabeça. Vai dormir, sonhar e vai se dar de que não achou resposta para nada porque a resposta era essa mesma; não ter resposta para nada. Isso deixa-o feliz e mais leve. Agora tem resposta pra tudo.

Um comentário:

  1. adorei a parte "Sanidade que provinha de conhecimentos obscuros não convencionais"

    adoro seu blog!
    =*

    Joice

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